[RESENHA 002] A beleza brutal de Primal

Enquanto pensava sobre novos conteúdos que poderíamos acrescentar agora com a tão recente fusão da Revista Conto5 e o Catarse Literal, Joalison me sugeriu produzir uma resenha, e o que poderia ser melhor que minha paixão audiovisual mais recente?


      Como uma pessoa apaixonada por animações e pelo fato de ter crescido lendo e assistindo muito sobre  zoologia e arqueologia, Primal chamou minha atenção no momento em que o descobri – um neandertal e um dinossauro juntos contra o mundo?

      Porém, seu lançamento em 2019 passou despercebido por mim e graças à Deus nunca tomei  nenhum spoiler até mais ou menos um mês atrás, quando pude ter a mais pura experiência de descobrir, interpretar e apreciar cada detalhe narrativo e artístico dessa obra, e com certeza vou demorar um bom tempo para achar algo tão envolvente quanto.

  
  Primal é uma animação norte-americana da Adult Swim, com duas temporadas de 10 episódios cada (todos com pouco mais de 20 minutos), em uma grande mistura de thriller, fantasia, ficção histórica e mais um pouco; criada e dirigida por ninguém menos que Genndy Tartakovsky, um dos maiores diretores de animação no ocidente – 5 Emmys, 3 Annie Awards e mais prêmios e animações de grande sucesso numa ficha impecável –, entre elas uma das maiores pérolas da Era City da Cartoon Network: Samurai Jack. Em Primal, vemos um neandertal (Spear) e um tiranossauro fêmea (Fang) formando um vínculo após tragédias muito parecidas. Juntos os dois tentam sobreviver ao cotidiano brutal da natureza selvagem, imprevisível e traiçoeira – e, às vezes, além dela. 

        Dito isso, talvez para o público de animações mais recentes – e, claro, o público por fora do mundo das animações americanas – não entenda de imediato a ligação entre as duas obras, ou melhor, no estilo tão único de Tartakovsky. De um lado, temos um samurai condenado a vagar em um mundo futurista que não compreende, do outro, homem e dinossauro vivendo a natureza impiedosa da Aurora dos Tempos. Duas propostas muito diferentes, porém, duas linguagens extremamente semelhantes: brutalidade, muita ficção histórica e, claro, a predominância de recursos visuais no lugar de sonoros (mais especificamente, de diálogos). Diferente de muitos desenhos da época, Samurai Jack possui episódios que brilham no silêncio, a narrativa sendo apresentada apenas em uma contemplação de filosofias, da transformação do mundo ao seu redor frente à desafios e, claro, ciclos.  

    Porém, a série do samurai ainda peca em certos pontos, como breves momentos de diálogo expositivo e ainda mais evidente em seus antagonistas, onde a brutalidade de Tartakovsky é censurada à meras máquinas ou "monstros de fumaça", de óleo de máquinas e cabos de aço ao invés de sangue jorrando e ossos fatiados.

        Bem, não espere o mesmo em Primal.


        Primal pode lembrar a série do samurai, porém, esqueça a censura e a contemplação suave. Primal não tem nenhuma linha de diálogo, sequer. O motivo é simples: por que um ser (quase) humano e um animal deveriam conversar? Essa é apenas a pergunta inicial. Não espere o poder da amizade e cooperação do tipo "Como Treinar o Seu Dragão", não espere longas sessões de meditação e filosofia de Jack. A beleza de Primal é simples e, acima de tudo, crua. 

        A animação sabe como nos cativar, nos jogando do drama pessoal para perseguições angustiantes, de uma lagoa tranquila para mares de desespero, brincando ao máximo com a ficção histórica, de dinossauros para zumbis, vikings, bruxas e mais criaturas saídas diretas de pesadelos, tudo coberto de sangue, tripas, rugidos e o próprio desconhecido.

        Infelizmente para mim (e felizmente pra vocês), ir além disso seria spoiler que poderia estragar sua experiência, então veja essa obra prima com seus próprios olhos.




Comentários

  1. Excelente recomendação! Fiquei curioso de assistir. Adorava Samurai Jack. Fica aqui minha recomendação de outra obra prima pouco falada: Scavengers Reign (Planeta dos Abutres)

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